Boletim de Ocorrências #47
Quando foi que eu perdi a cabeça de novo?
Não, não é isso. Quando foi que minha cabeça se separou do corpo mais uma vez? Isso. É isso.
Nunca fui decapitado, nem guilhotinado. Apenas dividido.
Tinha uma época em que eu era divido em dois. Tinha eu e tinha o meu corpo. Eu, era do pescoço para cima. O resto era o corpo que me carregava. Ou talvez o corpo que eu tinha que arrastar comigo como aquelas bolas de metal amarradas nos pés dos prisioneiros nos desenhos animados. Pra poder me deslocar eu precisava levar aquele corpo.
Então aquele corpo não tinha coração, não tinha sexo, não tinha plexo. Não tinha identidade. Tinha fome, isso sim, sempre. Não conseguia respirar, às vezes. E tinha desejos, de tempos em tempos. Desejos que eu, a cabeça, não permitia aflorarem em estado de lucidez. Tinha que estar quase dormindo.
E nessas horas, aquele eu pré-adolescente imaginava o corpo sendo impedido de se movimentar, exposto, vulnerável. Usado e abusado. À mercê. Meu estranho paraíso particular, feito de momentos em que a cabeça se deixava escorrer para o corpo sem culpa.
Mas esse corpo também foi armadura. Se endureceu e me protegeu de agressões de longa data. Desde a época em que eu, criança, nem sabia o que significavam aquelas palavras. Marica, veado, bixa, mariquinha, mulherzinha, gay, e por aí vai. Não sabia o que significavam, mas sabia que não significavam nada de bom. Nada que me fizesse ser amado.
Mas houve um momento em que eu e meu corpo fizemos as pazes. Que eu tomei consciência que eu era tudo aquilo, o corpo e a cabeça. Que eu ia de uma ponta à outra de mim e até além. Desloquei meu centro de gravidade, tentei como pude dominar meus movimentos e, ao mesmo tempo, relaxar, distender, abraçar o mundo. E descobri desajeitadamente que, com aquele corpo fazendo parte de mim, eu podia fazer muita coisa em meu nome. Podia escrever, inscrever, na cena, uma história. Podia fazer rir. Podia ter amigos.
E podia amar, também. Mas é difícil fazer uma coisa que a gente nunca aprendeu e nunca tentou. Porque estar amarrado na cama, a disposição dos homens da minha imaginação podia parecer bom, mas não era uma forma ideal de amar.
A forma ideal de amar, se aprende amando. E foi assim que fui avançando. Por tentativa e erro. Por errância.
Mas me dispersei. O que eu queria falar hoje, não era isso. Isso era para introduzir. Só que conforme fui me introduzindo, foram saindo coisas de mim. Agora volto. O que eu queria falar hoje é que, depois de muitos anos sendo eu, inteiro, voltei a sentir essa sensação de que eu estou em um ponto da cabeça e que o resto está ali apenas para me levar de um lado para o outro. Para me sentar no sofá. Para digitar o que eu quero no computador. Para jogar joguinho no celular. E eu sou aquele ponto que faz a cabeça ficar pesada.
Ou então como se eu fosse dois, agora. O corpo, que aprendeu a existir, e a cabeça. Me dispersei, como disse antes. Fiz uma mitose. E agora, cada um de mim tem vontade própria e cada um de mim tenta, dificultosamente, se executar. Sem considerar o outro.
Seria por falta de teatro? Falta de yoga? Conseguir esticar a cabeça até os joelhos talvez tenha ajudado a dar existência aos dois eus e a lhes integrar. Em francês, joelhos é genoux, je-nous, eu-nós.
Deve ser isso, estou com problemas de eu e nós. Mas ao falar de nós, já penso no fio. E isso já são outros quinhentos.
Até amanhã.

Anônima love : ) 💙 acho q é falta do teatro sim.
ResponderExcluir💙💙💙 teatro, yoga, amigos e amingos 💙💙💙
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