Boletim de ocorrências #50

Semana passada, escrevi um texto onde eu falava dos cães e gatos da minha infância. Eu disse que eles ficavam no pátio. Hoje, relendo esse texto, me perguntei: por que eu disse pátio, ao invés de jardim? Mas assim que pensei na palavra jardim, já percebi que a ideia era incompatível com o texto. Incompatível comigo, na verdade.

Sim, era um pátio. Mas também era um jardim. Era o jardim de casa. Era grande, tinha flores, tinha árvores, tinha arbustos, folhagens. Mas a simples ideia de escrever jardim me pareceu deslocada, como se um jardim fosse algo muito chique para a vida que a gente levava na minha infância. Como se jardim fosse na casa dos ricos. A gente tinha pátio.

Achei muito estranha esta autocensura com uma palavra que, no fundo, é uma palavra simples. Jardim não faz parte de um português culto, de uma norma de vocabulário mais rebuscado. Mas mesmo assim, não cabia no meu texto. Não cabia no nosso pátio.

Daí lembrei dos livros do Edouard Louis, que eu li no início do mês.

Nesses livros, ele faz uma volta ao passado. Ao passado de pobreza e violência do qual ele buscou se afastar desde sempre. Mudou o nome, mudou o corpo, mudou o rosto, mudou de classe social, mas como diziam nos anos 90, a gente sai da favela, mas a favela não sai da gente. E tenho a impressão que foi isso que o salvou. Cada vez que ele pensava ter conseguido realizar a fuga do seu passado e ter se transformado em uma nova pessoa, superior aos seus pais, ele se dava conta de que não era o suficiente. Sentia que precisava fazer mais, ir ainda mais longe para negar suas raízes e ser reconhecido pelos outros, os burgueses, como um igual. Até reconhecer que o passado estava dentro dele. Somente quando se colocou diante da sua história, da história da sua família, é que ele conseguiu compreender e viver plenamente sua diferença construída.

Mas o que isso tem a ver com o pátio da minha casa?

É que em um momento do seu relato, ele fala que quando saiu de casa para fazer o ensino médio em outra cidade, ele conviveu com uma família completamente diferente da sua. Culta, que conversava ao invés de assistir televisão, que lia, que ouvia música clássica. E que jantava.

E assim como o jardim me pareceu muito refinado para descrever o pátio da minha infância, a simples menção da palavra jantar, era uma afirmação da sua diferença de classe. Na casa dele, eles não jantavam. Eles comiam. E quando passou a jantar, ele deu um passo a mais na direção oposta à da sua família.

Bem, talvez isso não tenha nada a ver com minha resistência a usar a palavra jardim, mas foi uma lembrança que veio, talvez por ser uma leitura bastante recente.

Outras leituras vieram desde então e, certamente, estão deixando suas marcas em mim. Agora, por exemplo, estou lendo Mia Couto. Outro ritmo, outra sonoridade, outro estilo, outras imagens. E é interessante que são contos escritos para um jornal, acho, então tem mais ou menos o mesmo número de páginas. Me agrada ver como isso não impede de escrever histórias profundas e cheias de reviravoltas.

Nossa, mas a bateria deste computador não dura nada! Mal escrevo uma página e já vai acabando. Claro que essa minha página, hoje, levou o dia inteiro para ser preenchida. Entre pausas, saídas, distrações e devaneios, eu me perco, me encontro e vou alimentando meu jardim secreto. Ou seria meu pátio?

Até amanhã. Talvez.

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