Boletim de Ocorrências #54
Acordei com sede. Muita sede.
A boca seca, a garganta seca, a laringe, o esôfago, tudo seco. Os olhos secos.
Desci para pegar um copo d’água, voltei para o quarto e, pela primeira vez dei uma olhada em volta, para ver o lugar onde dormi esta noite. A primeira noite das férias. É que ontem chegamos tarde e cansados, o pessoal aqui já estava dormindo, e fomos direto pra cama, sem ascender as luzes nem conversar muito.
Dormi em um mezanino, no que seria o sótão da casa. Um lugar sem nada de especial para comentar. É um espaço com alguns livros, caixas de jogos, o colchão onde estou agora e objetos que não encontraram outro lugar na casa. Uma dessas peças que é sempre bom ter em casa, que deve servir de depósito, quarto de visita e espaço de trabalho.
Ah sim, tem uma coisa neste lugar. Duas cortininhas, que escondem alguma coisa, por trás delas. Uma, serve de porta para uma estante, suponho. Vou dar uma olhada. Sim, a cortina cobre uma estante de livros, arquivos e outros objetos. Normal.
A outra cortina já é mais misteriosa. Fica no meio da parede, e não vai até o chão. Na parte de cima, perto do teto, ela não fica completamente reta, e dá pra ver que ela cobre uma abertura na parede. Do outro lado do buraco da parede, pelo que vejo daqui da cama, está tudo escuro. Quero espiar o que tem por trás dessa cortina, mas fico com uma sensação meio infantil de que estaria fazendo algo que não devo. De que, se abrir aquela cortina, vou descobrir algo secreto e entrar em uma aventura de sessão da tarde. Já me vem à mente a voz da Cindy Lauper cantando a música dos Goonies, com aqueles túneis que desembocam em galerias subterrâneas, barcos de pirata, moedas de ouro e esqueletos. Estamos ricos!
Ou então, como no História sem fim, do outro lado do buraco vou encontrar um livro mágico que vai me levar para um mundo com gigantes de pedra, dragões voadores com cabeça de cachorro e todo um reino cuja existência dependerá de eu acreditar no poder da imaginação.
Estou com uma grande vontade de não abrir essa cortina. Para não me decepcionar. Para poder continuar me imaginando no lugar dos personagens desses filmes que povoaram a minha infância. Porque, é quase certo, não vou encontrar túneis secretos nem livros mágicos. O mais provável é que seja apenas um acesso ao telhado, um depósito, ou uma peça que ainda não terminou de ser construída ou mobiliada.
Putz, acho que acordei todo mundo ao descer a escada para buscar água. E também tem o barulhinho das teclas do computador que, no silêncio da casa, toma uma proporção inesperada. Em todo caso, há sinais de vida por aqui.
Mas aquela cortininha balançando ao vento parece que está me chamando. Será que vou resistir?
Claro que não. Eu me conheço. Sei que vou dar uma espiadinha por aquele buraco.
Então, se eu desaparecer por um tempo ou para sempre, vai ser o sinal do sucesso ou do fracasso da minha aventura. Talvez eu volte rico e coroado, ou talvez eu fique no meio caminho, mais um esqueleto no navio, mais uma pedra de um reino em ruínas.
Ou talvez, esteja apenas aproveitando minhas férias.
Vou lá.
Me deseje sorte.

Boas Férias André! Livre, solto e depois conta o que tinha atrás da cortina rsrs
ResponderExcluirAh... prefiro guardar o mistério!
ExcluirGoonies!!!! História sem fim!!!!
ResponderExcluirAdoro me encontrar contigo através desses textos. Mas acho que adoro ainda mais me reencontrar comigo neles…
Obrigada ❤️
Nossas memórias comuns de quando a gente não se conhecia ainda...
ExcluirÉ a Helô no celular de novo (não sei como não ser Anônimo nesse dispositivo 😅)
ResponderExcluirTentei mudar um pouco a configuração aqui... talvez na próxima vc consiga.
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