Boletim de ocorrências #91
Quando você ler estas palavras, eu não estarei mais aqui.
Não estarei mais aqui na frente do meu computador. Há chances de eu estar no alto de uma montanha, na borda da cratera de um vulcão. Observando as entranhas da terra, talvez em ebulição, talvez subindo lentamente, talvez se preparando para cuspir destruição no que está entorno.
Ou então, estarei sentado em um banco de pedra, observando à distância irmãos em um duelo mortal, heróis descendo aos infernos ou o sacrifício de virgens inocentes.
Também posso estar simplesmente como um corpo abandonado a beira-mar, deitado na areia sob o sol. Ou flutuando nas águas azuladas do mediterrâneo.
Sim, você entendeu. Estou passando meu aniversário na Sicília. Além dessas possibilidades que eu mencionei, tem muitas outras coisas que vou fazer aqui na Itália e que podem se resumir em duas palavras: arancini e gelato. Ou seja, farniente, dolce vita, mangia che te fa bene.
Já faz alguns anos que no dia do meu aniversário, realizo um percurso gastronômico por Paris, com os amigos que querem e podem me acompanhar. Talvez “percurso gastronômico” seja um pouco exagerado. Na verdade, organizo meu dia de princesa: almoço em um restaurante que eu goste, depois passo na minha sorveteria preferida, passeio em algum parque ou na beira do Sena, vou a um café, e termino em um barzinho, para encontrar o Jérôme e irmos ao teatro. Posso fazer isso tudo sozinho e bem feliz, mas aviso os amigos com antecedência e eles participam de uma ou mais etapas dessa jornada deliciosa.
Este ano é diferente. Decidi tirar uma semana de férias e conhecer um lugar novo. Mais ou menos o mesmo sistema dos outros aniversários, em escala internacional. E sem os amigos. É... não dá para ter tudo. Mas achei que este meio século de existência merecia outra coisa. Fazer uma viagem, mudar de perspectiva, desenvolver novos pontos de vista e criar espaço para construir caminhos que façam sentido nos próximos 50 capítulos deste livro que é a minha vida.
Nossa, para alguém que só queria estar tomando sorvete na beira da praia, a responsabilidade é imensa!
É que chegou aquele momento em que é preciso tomar decisões para mim. Acabou (enfim) a fase do “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Agora eu tenho que levar a vida lá, onde quero chegar. Com projetos e decisões que façam sentido. Com fundamento. Claro que se fazer de desentendido, fazer de conta que não é comigo, sempre é possível e até confortável, mas contraindicado. Acredite em mim. Tenho 50 anos de experiência no ramo.
Lendo isso, talvez pareça que tenho grandes projetos, grandes realizações. Não. Trata-se apenas de identificar e cuidar do que depende de mim e deixar passar o que não está sob o meu controle. Bem, na verdade, nada está sob o meu controle, mas você entendeu a ideia, né? Guardar o que faz bem, descartar o que ocupa espaço e não serve para nada. Ficar mais leve.
Posso explicar com uma imagem que me falaram outro dia e que achei interessante: escola – teatro – templo. A gente aprende coisas, raramente sozinho, com a família, com os amigos, com a vida. Depois, a gente vai testando o que aprendeu, coloca em prática (ou em cena) nas relações familiares, amorosas, profissionais, mais uma vez, em contato com o outro e não sozinho. O que nos serve, o que dessas experiências, momentos, pessoas, teve importância para nós, a gente preserva, resguarda como algo sagrado e que pode nos confortar, nos trazer de volta ao centro, quando nos sentimos perdidos.
Se você está lendo este boletim, é porque a gente se conhece. Mais do que isso, possivelmente você é uma parte importante da minha escola, do meu teatro e do meu templo.
Obrigado por estar aqui.

Ah André 🥲
ResponderExcluirObrigada 100 vezes a você por estar aqui. Você é eterno no meu coração. Beijo amigo do peito
Meu irmão
Aproveita a viagem que acaba de começar !
Ana Amélia