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Boletim de ocorrências #73 : Enciclopédia, parte 2 [K-S]

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Pensando no que escrevi no outro dia , muitas outras palavras vieram. Daria até pra fazer um boletim com cada letra. Mas não. Segue o baile!   K, de Ká. O primeiro namorado. Que demorei muitos anos para compreender e perdoar. L, de Lago Negro. Durante a infância, minha pracinha particular. Conheci todos os cantos e recantos. Com neve, hortênsias, azaléas, pedalinhos, loja de chocolate e bar. Caí de bicicleta naquela água turva. Mais tarde, fui fotógrafo de turistas. Também fiz picnic, acrobacia, tomei sorvete. E agora, penso no perfume dos eucaliptos, enquanto eu caminhava ali com minha mãe. M, de marica. Perto do lago, também ficava o jardim de infância, onde ouvi pela primeira vez essa palavra, sem saber o que significava. Primeira de muitas. N, de novo irmão. O Marcus nasceu no mesmo dia que eu, no meu aniversário de 18 anos, mas eu só o conheci 24 anos depois. Ele apareceu na época em que meu pai ficou doente e a presença dele deixou as coisas mais leves naquele ano...

Boletim de ocorrências #72 : Enciclopédia, parte 1 [A-J]

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Um abecedário. Um dicionário. Um glossário. Um manual. De tantos outros possíveis . A, de André. Meu nome. Nome de choro, chorinho, André do sapato novo . Nome de origem greco-latina, andros , homem, e todas as qualidades que o homem carrega: viril, forte, corajoso, guerreiro. O contrário de mim. B, de bixa. Na infância e na adolescência, coisa feia, que não se pode ser. Mais tarde, forma como nos chamamos entre amigos desta mesma geração que precisou se apropriar dos xingamentos para sobreviver . Bee... bixa, olha isso! C, de comer. Obsessão. Mais do que comer: mastigar e engolir. Em momentos de angústia, comer parece preencher o tempo e o espaço. Preencher, até não deixar lugar para pensar em outra coisa. Não funciona. Mas sem angústia, comer é bom. D, de dentista. Um trauma, desde pequeno. Já adulto, fui expulso de um consultório no meio da consulta porque não deixava o dentista chegar perto. Uma broca barulhenta, no interior da sua cabeça, causando dor, só pode ser...

Boletim de ocorrências #71

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Vou confessar: não consegui. Queria, mas não consegui. Tentei. Só que não rolou. Algum problema com tecnologia me impediu. Falhei. Esta semana, quis pedir para a inteligência artificial escrever o texto no meu lugar. Quis, mas não fiz. Não por livre e espontânea vontade, mas porque não consegui criar um perfil no site. Apenas isso. Se não fosse por esse pequeno detalhe, hoje, vocês estariam lendo um texto escrito por uma falsa inteligência. Artificial. Ao invés disso, vão ter que ficar com uma ignorância natural. A de sempre. Verdadeira. A minha inteligência, que não foi capaz nem de se inscrever no tal site. Mas fiquei curioso para saber o que poderia ser esse texto, se tivesse sido feito por um algoritmo. Falaria da minha mãe? Da minha falta de tempo para escrever? Do meu desgosto com o mundo do trabalho? Será que ela, a inteligência, ou ele, o algoritmo, saberia que não estou mais fazendo terapia? Ou que estou precisando de terapia novamente? Teria o meu senso de humor? Seri...