Boletim de ocorrências #34
Hoje, um dia tranquilo. O estômago voltando para o lugar, depois da ressaca. Café da manhã. Almoço. Sobremesa gostosa. Dia bonito.
Daí, eu vou falar sobre o quê? Stress.
É que outro dia, me dei conta que coloco muitas coisas na conta do stress. Tudo o que me acontece é stress. Se estou com a pele do rosto vermelha, descamando, penso que deve ser stress. Se durmo mal, me digo que deve ser stress. Se estou com muita caspa, só pode ser stress. A pálpebra inflamada? É stress. Estou comendo demais, bebendo demais: stress.
Quer dizer, não é bem assim. Não é apenas stress. Também sempre penso que pode ser por alguma coisa que eu tenha comido, muito picante, por exemplo, ou muito gordurosa. Hábitos alimentares, ou hábitos de vida, em geral, podem causar esses problemas.
Então, fiquei divagando se o stress está se tornando um hábito de vida. Se viver submerso no stress tornou-se algo comum para mim. O stress de ter algum problema grave no apartamento e eu não ter como pagar as obras. O stress de pensar em todas as contas e nos cinco empréstimos que tenho que reembolsar pelos próximos quinze anos. O stress de me questionar, às vezes, se minha vida conjugal existe apenas pelo laço das dívidas e não por aquele do amor e do companheirismo. O stress de ter que continuar em um trabalho que a longo prazo pode acabar com as minhas articulações, apenas pela necessidade do salário. O stress de pensar no inventário do meu pai. E esse, nem sou eu que cuido. Imagina se fosse.
Olhando essa lista, ou melhor, essa piscina de stress que eu construí para poder mergulhar à vontade, me dou conta que a grande maioria desses problemas são apenas materiais. Então, na verdade, nada tão grave que não possa ser resolvido. Um pouco de desapego aqui, um pouco de calma e de carinho ali. Nada disso é definitivo nem deveria ser definidor do que a minha vida pode ser.
Talvez por ter falado em piscina, agora penso no tio patinhas. Ele também ficava bem nervosinho de perder dinheiro, mesmo com aquele mar de moedinhas. E isso me fez lembrar de uma foto com meu pai. Eu devia ter um ano e pouco e estamos em um desses pedalinhos no lago negro, em gramado. Meu pai administrava o lago negro quando eu era pequeno, então passei muito tempo da minha infância ali. E para identificar os pedalinhos, ele tinha colocado neles o nome de personagens de desenho, ou de quadrinhos. O que estamos na foto, se chama patinhas.
Essa foto é bem anos setenta mesmo. Acho que hoje, os pais não deixariam uma criança de um ano soltinha assim no meio de um lago, sem nenhuma proteção. Bons tempos esses, sem stress.
Outra coisa que gosto, são as blusas que estamos vestindo. A minha, quase certo, foi feita pela minha avó, a vó Milinda. A do meu pai, acho que não. Ele tinha vários desses cardigans que também eram a cara dos anos setenta. Eu acho lindos! Depois, quando cresci, tentei recuperar, mas já estavam velhos e cheios de furos. Passaram de roupas de trabalho, a roupas de ir pescar ou caçar e, depois, foram abandonados. Abandonados, mas não jogados fora, pois os encontrei na garagem, há uns 25 anos atrás. Talvez ainda estejam lá.
Olha só, não é que eu já recebi uma herança do meu pai, fora do dito inventário? É o hábito de classificar as roupas. Ou melhor, de desclassificar conforme vão ficando usadas, indo de roupa boa à roupa de ficar em casa, até chegarem na gaveta/limbo/purgatório onde vão passar seus últimos anos.
Semana estranha, essa. Começou com morte e terminou com herança. Passando por uma ressaca. E a descoberta de que preciso cuidar para o stress não se tornar um hábito. Até a semana que vem.

Forte esse BO... Desapego de coisas velhas, liberar energia! Meu sincero desejo que esse inventário se resolva 😘 beijos
ResponderExcluirAprender a relativizar e entender que os problemas não precisam ser alimentados, né? Beijo!
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