Boletim de ocorrências #35

Olha... parabéns, André. Parabéns por ter conseguido mais uma vez escrever mentalmente um boletim maravilhoso enquanto estava entre o sono e a vigília. Um dia eu vou receber o prêmio nobel de literatura mental. Com certeza. Quando a leitura de pensamento for mais difundida entre nós.

Pena que em algum momento desta escrita mágica, instintiva, mas assim, realmente, em um microssegundo, um fiapo de pensamento... ia dizer entra, mas é mais do que entra, ele interfere, ou ainda melhor, se imiscui na minha cabeça como um pentelho no meio dos dentes, ou seja, algo que vem incomodar um momento que até ali estava sendo bom, mas que tem que ser interrompido para a gente conseguir tirar ele dali, e me leva para outro assunto, que não tinha absolutamente nada a ver com a coisa, e começo uma discussão mental daquelas que me acorda de vez e já me deixa nervoso com a vida e de mau humor para começar o dia.

Mas o que seria o assunto lindo? O pentelho no dente, nem vou falar mais, que já tomou muito tempo e energia nesta manhã. Até posso falar de pentelho, mas outro assunto: a minha guerra contra os pentelhos brancos. Perdi. Pronto. Acabou o assunto. Mais um tema tratado de forma clara, objetiva e eficiente, nestes boletins.

Volta, André, volta aqui.

O assunto lindo era algo sobre uma ausência ser, na verdade, uma presença. A ausência de algo existe pela presença da lembrança deste algo. A ausência do meu pai, do meu país, dos meus amigos, do meu ofício, é preenchida e materializada com minhas lembranças, meus desejos, minhas projeções e se torna uma presença concreta na minha vida.

Então, sem a lembrança não tem ausência. Dizem que uma pessoa demente, que não lembra mais de nada, está ausente. Mas ela está ausente para quem ficou, para quem tem a lembrança de quem essa pessoa já foi. A pessoa, em si, talvez esteja mais confusa do que ausente.

E daí, que eu tinha um monte de exemplos super poéticos, que não lembro mais. No lugar disso, vieram outros pensamentos, os tais pentelhos no dente, fui deslizando para outros assuntos e, quando me dei conta, não sabia mais o caminho de volta para a ausência. É isso. Fiquei na lembrança do que poderia ter escrito, mas que não escrevi e perdi o fio.

Esse assunto do fio vai e vem neste blog. Vai e vem na terapia. Se a cabeça da gente fosse um labirinto, seria possível deixar um fio que nos conduziria de volta pelo caminho dos pensamentos. Mas ela não é. Ou é? De repente é um labirinto, mas eu que não coloquei o fio. Talvez eu tenha colocado apenas migalhas de pão para marcar o caminho e quem teve infância sabe que migalhas de pão não ajudam a encontrar o caminho de casa.

O mais provável é que eu tenha ficado passeando pelos pensamentos, com o carretel de linha na mão. Esqueci de desenrolar o fio e, quando quis voltar, me perdi. Fiquei lá, com o pentelho no dente e o fio na mão.

Como aquela foto da Disney. Aquela de quando eu tinha dez anos. Uma que eu tirei no fim do desfile, com o último personagem lá longe já, porque eu tinha assistido o desfile inteiro pelo visor da câmera fotográfica, sem lembrar de apertar no botão do obturador.

Não sei se essa foto ainda existe. Certamente, ela estava em um álbum, na garagem. Em todo caso, a ausência dessa foto existe, de forma bem presente, na lembrança que eu tenho dela. Hoje.

Comentários

  1. As vezes a gente se enrola tanto... e bastava um fio dental(ah! Um fio!...) pra tirar esse pentelho maldito do meio dos seus dentes! Agora vem cá, pentelho entre os dentes é engraçado demais!!
    Pentelho branco... realmente outro assunto...

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    1. Você ainda é muito jovem para entender... 😂😂😂

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  2. O pentelho branco ou o pentelho entre os dentes ? 🤔

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    1. Ah, AnAm, quem de nós nunca tirou um pentelho do dente que atire o primeiro fio dental.

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