Boletim de Ocorrências #46

Precisava descansar, ele pensou.

Logo depois, se deu conta que não estava trabalhando tanto assim, mas que o cansaço vinha do mesmo jeito no fim do dia. Os olhos secos de passar o dia mirando a tela do computador, ou do telefone, sem fazer nada de específico. Apenas, literalmente, cansando a vista.

Cansando a vista nas redes sociais que de sociais não tinham muita coisa. O deixavam isolado do mundo, fechado em casa, mirando a tela e arrastando a lista de conteúdos infinitos.

Conteúdos que também não continham muita coisa. Eram mais formas do que conteúdos. Formas ou fórmulas? As mesmas formas sem conteúdo, repetindo uma fórmula com pequenas variações.

Mas não era apenas a rede social. Também tinha o computador, os textos que queria escrever. Que estava escrevendo. Seriam também formas sem conteúdo? Ou conteúdos sem forma, que não encontram o seu lugar? Justamente, estava dando forma para este conteúdo e tentando produzir o seu lugar. E com muita disciplina. Regularmente.

Que loucura, pensou. Ao escrever na terceira pessoa, colocar para fora de si, para além de si, o que se passava em si, se deu conta da dificuldade para avançar. Cada linha, uma vitória sobre o vazio. Sobre a página vazia. Uma vitória sobre si.

Mas quem é este si que precisa ser ultrapassado? O si que precisa ser vencido?

Ao pensar vencido, por engano escreveu vendido.

Vendido, então. Passado adiante. Talvez, justamente, mais vendido do que vencido. Tornar-se [tornar si] um artigo que desperte o interesse do outro. De ti.

Ti e si atravessavam a rua... poderia ser o começo de uma piada. Não.

Mas o que fazer de si para ti? O que dar para ti? O que falta em ti? Sendo ele si mesmo, não tinha nada a oferecer que não fosse parte de si, que não lhe viesse dele próprio e da confusão que tinha em si. Confusão como uma argamassa de insegurança, desejo, energia e desilusão. E frustração. E coragem. E medo.

E histórias.

Agora, no quarto de hotel, olhou em volta, ao redor de si, para buscar algo para falar que fosse exterior a si. Mas não encontrou nada além de: cortina fechada, almofada caída, abajur torto, reflexo do banheiro pelo espelho do quarto, interruptor da lâmpada de cabeceira. Um livro na cama, a mochila na cama, o telefone na cama, a televisão desligada, a pernas cruzadas. Opa, as pernas fazem parte de si. Parou por aí.

Do quarto ao parque é um passo. E lembrou do livro viagem ao redor do meu quarto. Vou reler, pensou, quando terminar os contos que comecei ontem. Esses contos que poderia ter lido hoje, mas que não leu porque ficou ali, mirando a tela, arrastando os infinitos conteúdos sem conteúdo, escrevendo ou tentando escrever algo que o fizesse sair de si e entrar no mundo. Entrar em ti.

Quando caiu em si, se deu conta que tinha chegado a hora de voltar ao trabalho, e depois voltar para casa.

E naquela posição dos homens do século 19, ele, homem do presente, cogitou.

Será que vai estar cansado esta noite?

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