Boletim de ocorrências #67 : ELA, parte 3

Ontem, depois de escrever e antes de dormir, tentei lembrar da tradução em português para a palavra francesa détresse.

Deve haver uma palavra para isso. Mas não encontrei, não lembrei.

O tradutor on line me propõe sofrimento. Sim, é um sofrimento, mas um sofrimento específico, qualificado. Não é qualquer sofrimento. Como explicar? Procuro a tradução em espanhol e aparece angústia. Sim. Mas ainda não. Não é exatamente isso também. Não é só isso.

Vou para o dicionário, então. Se não encontro uma palavra satisfatória, talvez a definição me ajude a entender o que estou procurando. No Larousse encontro duas definições que correspondem ao que estou querendo dizer sem encontrar uma palavra em português.

“Angústia causada por um sentimento de abandono, de impotência, por uma situação desesperada”. O exemplo é: A détresse do desempregado.

E a outra: “Situação crítica, infortúnio que exige ajuda imediata”. E o exemplo: Uma família em détresse.

A primeira definição, coloca o foco no sentimento gerado pela falta de esperança, na sensação de que é impossível mudar a situação. Ela ultrapassa as possibilidades mentais e emocionais da pessoa que está sofrendo e que não sabe mais o que fazer. A segunda, no fato, na impossibilidade material de resolver a situação, que necessita de um auxílio exterior urgente. Dinheiro, comida, água, abrigo. Resumindo: acolhimento. Material e emocional também, imagino.

Daí, fiquei viajando no dicionário, nos sinônimos que eram dados para a détresse, e cheguei em uma palavra que poderia reunir sofrimento e angústia. Uma palavra que, para mim, talvez defina e qualifique esse sentimento em português.

Aflição.

Me parece que das três, aflição é a palavra mais forte, mais carregada. Tenho a impressão que uma pessoa pode passar gradualmente do sofrimento, que vai se tornando uma angústia até chegar na aflição. Angústia já é algo forte, mas penso que a aflição é uma angústia mais agitada, com mais descontrole.

Claro, tudo isso são suposições pessoais sem nenhuma base teórica, etimológica ou psicológica. Apenas um divertimento, passeando pelas possibilidades da internet.

Pronto! Foi assim que, pelo exercício da tradução, eu transformei aflição em divertimento. Pena que na vida não é bem assim. Mas isso me faz pensar em algo que vi hoje, entre as diversas atividades que realizei para preencher meu dia.

Decidi ir à academia. Fiz uma aula de pilates, hoje.

Na volta, passei no supermercado. Comprei pão, queijo, iogurte, fruta, cereal...

Depois, no caminho de casa, vi um muro grafitado onde alguém tinha escrito, por cima do desenho que estava lá: “O Sofrimento Inspira A Mudança...”

Então, supondo que a mudança seja algo bom, haveria um fundo positivo no sofrimento. Claro, se uma situação faz a gente sofrer, mudar de situação é bom. Mas se a gente passa pelo sofrimento sem encontrar a inspiração da mudança, e chega na aflição, que alternativas sobram?

Tudo isso, eu pensei enquanto lembrava de algumas conversas com a minha mãe.

[continua]

Comentários

  1. Que bom viajar nas palavras na sua companhia, Dé! Afasta qualquer détresse… 🙂

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