Boletim de ocorrências #89
Segundo uma lenda, ou uma mentira, se você preferir... não, digamos: segundo uma crença antiga, os cisnes brancos passavam a vida inteira mudos e antes de morrer proferiam um canto que concentrava toda a beleza que esses animais representam. Mesmo que seja notório que isso não é verdade, já que os cisnes não são mudos, nem cantam antes de morrer, essa imagem do último canto do cisne continua sendo empregada para ilustrar a obra prima final de um artista, ou uma manifestação derradeira e notável de alguma coisa, antes de ela desaparecer.
Tem outro canto do cisne, a peça curta do Tchekhov, onde um velho ator, em fim de carreira, fica preso no teatro depois de uma apresentação e passa a noite conversando com um contrarregra que, sem ter onde morar, dorme nos camarins. Durante esta conversa o ator interpreta magistralmente os personagens que lhe deram glória no passado e, no fim (para você que gosta de spoiler), morre. Acho que é mais ou menos essa, a sinopse. Assisti a essa peça com a direção sensível da Unyl e uma interpretação luminosa do Rodrigo e do saudoso Alexandre.
Mas hoje quero falar sobre outra peça. Sobre o meu próprio canto do cisne. Calma, não estou para morrer (quer dizer, estamos todos, né?). Pelo menos, isso não está nos meus planos a curto prazo. O meu verdadeiro canto do cisne não chegou ainda e vai demorar bastante para chegar, se depender de mim. Mas em 2018, fiz meu último espetáculo de teatro. Depois de 21 anos de (nem tão) fiéis serviços à arte dramática, me aposentei do teatro com “O Inspetor geral”. Ia dizer me aposentei dos palcos, mas graças ao querido Alex, a despedida oficial dos palcos foi um ano depois, dançando para um público restrito de privilegiados.
Voltando ao inspetor geral. Le Révizor. Fuçando nos meus álbuns encontrei esta foto e me dei conta que esta apresentação ocorreu há exatos 10 anos, dia 28 de abril de 2016.
Sempre quis fazer essa peça. O texto, de 1836, é bom de ler, atual e divertidíssimo. E a encenação da qual participei, nem tenho palavras... posso dizer apenas que me sentia honrado de compartilhar o palco com colegas tão cheios de talento. Foram 100 apresentações em pouco mais de 3 anos de turnê e em nenhum momento cansei de assisti-los das coxias. Impressionantes. Sinceramente, não sei se eu estava à altura, mas eu estava muito feliz de estar ali.
Não digo isso para ouvir elogios. Já me disseram mais de uma vez que sou um bom ator. Sem modéstia, também acho que sou um bom ator, se as condições forem propícias. O que quero dizer com condições propícias? Que o conceito do projeto seja legal, que eu confie na direção, que o grupo tenha coesão, que a produção seja boa... se tiver cachê de ensaio, cachê de apresentação e comidinhas no camarim, as condições são mais do que propícias, elas são o sonho de qualquer taurino. E nesse espetáculo tudo isso estava reunido. Nós e eles. Teatros legais, críticas boas, público presente.
Claro, houve momentos difíceis nesse processo. Pessoas que saíram do projeto, semanas inteiras de trabalho intenso para criar um pequeno momento de transição ou a abordagem para uma nova cena, partes inteiras do espetáculo que a gente adorava e precisou cortar um dia antes da estreia... enfim, coisas típicas de todo processo criativo. Mas, em geral, considero que foi uma maneira bem digna de concluir esses 21 anos de correria. Não que isso estivesse previsto. Não estava. A gente ia começar um projeto novo que foi anulado de última hora. De última hora mesmo, dois dias antes do início dos ensaios. Foi bastante traumatizante para mim e, naquele momento em que eu buscava mais estabilidade financeira, foi o chute na bunda que eu precisava para mudar de vida.
Pois... mudei de vida. Só que depois de mudar de vida, ficou difícil desmudar de vida. Voltar atrás. Ou recomeçar. Ou traçar novos caminhos no meu ofício. Por enquanto, me tornei um cisne quietinho que a cada página vazia, a cada boletim, libera um pouco sua voz e desvenda o mundo que contém em si, preparando talvez o canto mais bonito que ainda está por vir.
Então... obrigado pela leitura!

Nunca é tarde demais!!!! Tu es maravilhoso no palco e tens o don maravilhoso de escrever. Por enquanto, infelizmente não te vejo num palco, mas te leio por aqui. ❤️
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ExcluirEu assisti e adorei !!!
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ExcluirAi que lindo André !! Estarei na primeira fila, sempre!! Ou quem sabe, juntinho, ali no palco ? Hein?! Hein?!
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