Boletim de ocorrências #84 (parte 2)
Será? Será que eu estava mesmo sendo agredido? Mas por que não fiz nada para impedir?
Aguentei até o fim, sendo atravessado por uma avalanche de sentimentos e pensamentos confusos em relação ao massagista, mas também a mim mesmo e que se acumulavam em uma massa caótica. Vergonha. Dúvida. Medo. Humilhação. Culpa. Irritação. Incredulidade. Ressentimento.
Mais do que aguentar até o fim: quando saí da posição de bruços para continuar a massagem na parte anterior do corpo, tentei mostrar um rosto tranquilo e relaxado, com o leve sorriso descontraído que exibem aqueles que não estão sendo mortificados. Mantive os olhos fechados para evitar mostrar o que estava sentindo. Espelho da alma, dizem.
Achei que essa minha atitude acalmaria o massagista, que ele a interpretaria como um elogio por seu trabalho e suspenderia minha pena. Mas o efeito, se realmente houve algum efeito, foi contrário. A massagem continuou sendo violenta e, agora, ele também se atacava ao meu rosto. Espremia com energia minhas têmporas, testa, bochechas, como se quisesse comprimir tudo em um ponto no centro da face.
Por mais absurdo que possa parecer, fiquei com medo novamente. Medo não, pavor. E se, com seus movimentos, ele quebrasse minhas pernas ou provocasse uma luxação? Como técnica de defesa, ou de sobrevivência, permaneci imóvel e silencioso.
Acho que o nome disso é pânico.
Como disse antes, aguentei até o fim e depois que os massagistas saíram da sala, olhei para meu namorado. Ele estava com um sorriso luminoso, parecia relaxado e ao mesmo tempo cheio de energia. Quando ele comentou “Foi bom, né?”, eu não quis reclamar e disse apenas que não sabia direito o que pensar. Explico brevemente que como a massagem estava muito suave, tinha pedido um pouco mais pressão e que isso deve ter ofendido o massagista que fez pressão demais. Na portaria, não consigo responder ao “Até a próxima!” lançado pela recepcionista e saio o mais rápido possível dali.
Caminhamos um pouco pela rua e, mais tarde, entramos em um café. Fui ao banheiro e, enquanto lavava as mãos, me olhei no espelho. Ali, caiu a ficha, como dizem. Minha testa apresentava traços de um vermelho intenso. Naquela noite, acordei agitado e remoendo o que tinha ocorrido. Não havia dúvidas: sim, fui agredido.
No dia seguinte, uma colega que notou as marcas no meu rosto disse que eu deveria prevenir o spa, para evitar que outras pessoas passassem pela mesma situação. Mesmo estando de acordo, não me manifestei e com o passar dos dias, concluí que já era muito tarde para fazer uma reclamação ao estabelecimento. São águas passadas. Esse é, pelo menos, o meu desejo.
Mas depois disso muitas reflexões vieram sobre alguns temas que, EVIDENTEMENTE, guardadas as proporções, estão de alguma forma relacionados com o que senti. Entendo melhor os relatos frequentes de mulheres que sofrem agressões, mesmo recorrentes, e não denunciam seus agressores. Ou de mulheres que sofrem abusos sexuais e “não reagem” pois se perguntam se deram algum motivo para que a outra parte (o homen, né) fizesse o que fez. Palavras como vergonha e humilhação são sempre citadas neste tipo de narrativa. Muitas vezes, é a própria sociedade que transforma vítimas em culpadas, provocadoras, colocando em questão a veracidade ou a gravidade o que ocorreu. Sem falar na exposição e a estigmatização sofrida pelas mulheres que ousam denunciar. Claro, a mentalidade comum está mudando. Cada vez mais a palavra se libera e, citando Gisèle Pelicot, a vergonha muda de lado.
Nada a ver com o que me aconteceu, óbvio (faço parte de outras minorias). Mas estou escrevendo este boletim próximo ao dia internacional de luta pelos direitos das mulheres e imagino que o assunto se misturou com o que eu estava sentindo e... sei lá. Resolvi escrever.
Mas depois de tudo isso... no meu caso, com o passar dos dias, sabe que meus ombros ficaram menos tensos?

Escreveu e melhorou !
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