Boletim de ocorrências #97

Normalmente, as funerárias se instalam perto de cemitérios.

Olha... que assunto bom minha cabeça está martelando esta semana!

Calma, não tenho a intenção de pesar o clima. Quero apenas fazer algumas observações, mas vai saber onde isso vai me levar. Não diga que não foi avisado.

Sobre o assunto, estou falando da minha experiência, claro. Enfim, não tenho experiência concreta em funerárias. Quero dizer que nunca trabalhei em uma, nem precisei pessoalmente dos serviços de uma. E ao dizer “pessoalmente”... bem, você entendeu! Quando houve necessidade na minha família, outras pessoas fizeram o meio de campo.

Então, para que fique claro: enquanto pessoa que caminha pelas ruas, tenho a impressão de sempre ter visto as agências funerárias nos arredores de cemitérios. Ou de hospitais, mas neste caso fica meio deprimente para quem chega no hospital com esperança de sair vivo. Por outro lado, também tem muitas farmácias perto de hospitais. O que pode ser um sinal de que você está no caminho cura. Mas isso já é outro assunto.

Por que estou falando disso? É que não moro perto de nenhum cemitério e, recentemente, abriu uma funerária no meu bairro. Do nada, sem razão aparente. Pelo menos, ela fica do lado de uma floricultura. Considero isso importante para este tipo de empresa. Já dá para fazer uma parceria comercial e todo mundo sai ganhando. Agora, o que realmente me chamou atenção foi o nome da agência funerária: “o ponto final”. Sei lá, achei de mau gosto. Tipo: acaba aqui, minha gente, não tem nada para ver do outro lado. Triste, mas direto.

Isso me faz pensar em uma coisa que ouvi durante o curso de direito (lá no meio dos anos 90, lembra? Mencionei brevemente esse período da minha vida por aqui): os velórios de pessoas que morrem de doenças longas têm menos gente do que o das pessoas que sofrem um acidente ou que têm uma morte súbita. Se explicaria pelo fato de que a gente não tem tempo de se despedir ou de “acertar as contas” com uma pessoa que tem uma morte inesperada. Então, vai ao velório. Justamente, para colocar o tal ponto final na relação. Não sei se é verdade, talvez sim. No caso do meu pai, foi uma doença longa, mas não tenho parâmetros objetivos para analisar o tamanho da plateia.

Outra coisa que já me deixava intrigado e que, depois de ver esta funerária no meu bairro, fui pesquisar, é o vocabulário francês que gravita ao redor deste tema. Muito curioso e específico. A começar pela própria agência funerária. Chama-se pompes funèbres em razão dos cortejos com grande pompa que eram organizados para celebrar a morte de personalidades importantes, na época romana. Outro exemplo, o agente funerário é croque-mort, literalmente “morde-morto”, o que inspira muitas imagens e lendas, mas vem de um outro significado da palavra croquer: fazer desaparecer. O carro funerário é o corbillard, que me fazia pensar nos corvos (corbeaux) acompanhando o cortejo, como um mau agouro. O nome vem, na verdade, dos barcos que no período da peste foram utilizados para transportar os corpos até a cidade de Corbeil, onde ficava uma fossa comum. Já a mise en bière, o fato de colocar o corpo em um caixão, não tem nada a ver com cerveja (bière) ou com “beber o defunto”, como eu supunha, mas com as macas (béra, em francês antigo) nas quais se transportavam mortos e feridos.

Não sei por que esses assuntos chamam tanto minha atenção. Deve ser bastante repetitivo para quem me acompanha por aqui. Nos últimos anos, tenho tido uma atração particular pelo tema. Para não dizer uma obsessão. Ou é o tema que tem tido uma atração particular por mim. O livro que acabei de ler, O Ano do pensamento mágico (muito bom, recomendo), estava na minha lista de leitura há tempos, mas eu não lembrava que ele tratava de luto. De um processo que é difícil, necessário e que, no fim, também pode ser bonito. Quando a gente se dá conta do paradoxo que é reconhecer, aceitar e amar este efêmero ponto final.



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