Boletim de Ocorrências #12

Então. Hoje está difícil de encontrar assunto. Não tem nada pra falar. Nada. Nem a insônia vai render alguma coisa. E a vizinha, tocando piano. Pelo amor de deus, faz sete anos! Toca, toca e não aprende! Que tortura! Enquanto fazíamos as obras no apartamento, em 2015, cheguei a ter pesadelos com a música que ela estava aprendendo. Acho que era a trilha daquela propaganda dos vinagres Weimann, que era uma tela preta (na verdade, um recipiente transparente cheio de vinagre), onde caiam legumes, no ritmo das notas da música. Ok, sei que devo ser a única pessoa que lembra dessa propaganda, mas não saberia descrever de outra forma a tal música. Talvez seja algo de Chopin.

Pobre Chopin. Dá pra ver que a pessoa tem um repertório cultural capenga, quando a referência de uma música clássica é a propaganda do vinagre e não o estilo do artista.

Mas voltando... fiquei traumatizado com a música. Ouvia as notas marteladas no piano, mesmo quando estava andando na rua. Elas entraram na minha cabeça e grudaram. Na verdade, a vizinha não tem culpa. Estava aprendendo uma nova partitura. Então tocava apenas umas cinco notas, parava, voltava, repetia e por aí vai, das nove da manhã às seis da tarde. Todos os dias. Durante semanas a fio (olha aí o fio, pra me incomodar). E como eu estava no apartamento o dia inteiro, passando massa corrida, lixando parede, pintando, montando móvel, eu ouvia essas cinco notas de forma ininterrupta. Acho que o som entrava por um armário embutido, que deixava a parede mais fina. Um dia cheguei a colocar um rádio tocando bem alto, fechado dentro do armário pra ver se parava de ouvir a vizinha. Mas era tarde demais. As notas já estavam incrustradas na minha cabeça. Eu não precisava mais da vizinha para ouvir a vizinha tocar.

Isso aconteceu mais umas duas ou três vezes. Quero dizer, com mais duas ou três músicas diferentes, durante esses sete anos. Mas nunca de uma forma tão intensa como esta primeira vez. Tem uma, que eu até achei que ela estava tocando bem. Acho que essas melodias se impregnam na minha cabeça com tanta força porque eu já as conheço de antes de a vizinha, digamos, se apropriar delas. E isso é pior, porque, como eu conheço a continuação das cinco notas, fico querendo que a coisa evolua.

Agora é diferente, não consegui identificar o que ela está querendo tocar. Me parecem apenas notas aleatórias, dispersas em uma partitura. Então, não ficam na minha cabeça. Ecoam um pouco e desaparecem. Só me irritam no momento.

E talvez, nem seja a vizinha que toque esse piano. Talvez ela dê aulas e se trate de um aluno debutante. Talvez seja seu filho, ou outra pessoa em outro apartamento. Mas como tenho certas rusgas com essa vizinha, é o rosto dela que eu coloquei na ponta destes dedos que massacram as teclas do piano.

Felizmente, são nove da noite e a serenata já terminou há uns trinta minutos. E absolutamente nada ficou na minha mente. Nada é maneira da dizer, pois não existe silêncio na minha cabeça. Não é que eu fique pensando coisas o tempo inteiro. Isso também acontece. Mas é que a minha cabeça é ocupada por um barulho incessante. Um zumbido, uma sirene, um alerta, como para dizer “você está aqui”. Enquanto há vida, há som. E fúria. De qualquer forma, parece que ficar em um lugar completamente silencioso é insuportável. Nesse sentido, minha cabeça deve ser um espaço dos mais confortáveis.

São nove da noite e eu estou aqui há umas duas horas.

Logo hoje, que não tinha assunto.

Comentários

  1. Kkkk lições de piano me lembram da casa da tia Lais, aliás, faz tempo que o piano desafinado não toca. Acho que essas repetições se chamam ensaios e estudos, e são um saco até pra quem toca. O que dirá pro coitado do vizinho

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    1. Quem me dera que a vizinha tocasse como tu!
      Saudades...

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  2. 🤣🤣🤣🤣 tortura! Compre um saxofone e faça aulas "pra" ela. Melodia a vizinha, kkkkkkkk...

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    1. Hehehe... vou começar a cantar, pra ela ver o que é bom!

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