Boletim de ocorrências #11
Tanta coisa ocupou minha insônia, esta noite. Tanta coisa aleatória, que é até difícil de descrever com alguma forma de conexão (me recuso a falar de fio, hoje). Por onde começar? O que você quer saber? Passado, presente ou futuro?
Em primeiro lugar, TUDO É POSSÍVEL. Nossa! Eu costumava citar essa frase que o impossível é formado por pequenos possíveis. E realmente, tudo depende do contexto. Por exemplo: sair com um par de sapatos, voltar pra casa e, no dia seguinte, se dar conta que esqueceu os sapatos em uma praça. Em princípio, eu diria “impossível”. Mas tem certas pessoas que vivem essas situações inusitadas frequentemente. Não eu. Quer dizer, só pra me contradizer, agora penso em um periquito arco-íris que entra pela minha janela e passa a tarde bicando minha cabeça. Digamos que, normalmente, essas situações rocambolescas não acontecem comigo. Mas eu vivo com uma pessoa assim. E nem foi tão rocambolesco. Quando se vê o contexto, cada pequeno possível fez advir uma impossível volta para casa sem os sapatos. É que a pessoa tinha um segundo par de sapatos na bolsa. Trocou de sapatos para dançar tango em uma milonga a céu aberto. Dançou, se divertiu, aproveitou e, no fim, voltou pra casa. Com os sapatos de tango nos pés e os outros na praça. Normal. Quer dizer, acontece. Quer dizer, tudo se explica. Mas eu, que sou um cara que tem muitas discussões mentais, o tempo inteiro, me pergunto como não pensou em colocar os sapatos na bolsa, quando trocou? Tão simples de evitar o problema! Antecipar, que chama, né? Ou carga mental. Mas bem, o sapato é seu, você deixa onde quiser.
Só que, falando em o sapato é seu: quenhéqui tinha dado esse sapato de presente pra pessoa? Quenhéqui deixou de comprar um sapato para si mesmo, para fazer este mimo? Eu! E o sapato novinho. Usado três vezes. E quando já estava começando a ficar nervoso/triste/irritado com essa perda, pronto para me lamentar e ficar enchendo o saco alheio, me lembrei do episódio do podcast “Não inviabilize”, onde o cara doou o rim para a namorada e, depois que eles se separaram, ele ficava vigiando a ex pelas redes sociais e reclamando de como ela estava cuidando mal do rim dele. O rim dele. Que ele doou para ela. E que é o rim dela, agora. Daí, relaxei e tive que rir da situação. Um pouco de desapego não faz mal pra ninguém. Sobretudo, se for desapego do sapato dos outros. Poderia ter sido um rim, né.
Que mais...
podia falar da minha avó ou das duas, mas acho que vou deixar pra outro dia. É que
uma era a Vó Linda e a outra a Vó Milinda. A vó Linda era quietinha, magra e se
vestia com conjuntinhos de slack. Ela falava “bonecra” e “açúcre”, e sempre
tinha pastilhas valda. Às vezes, morava com a gente, mas quase sempre, na casa
da minha tia. Acho que ela comia de pé, mas talvez seja apenas minha imaginação
querendo justificar o fato de eu comer de pé, encostado na pia. Um dia, enquanto
a gente brincava, do nada ela trouxe folhas de alface lavadas e cobertas com açúcre,
talvez pra estimular a gente a comer salada, talvez porque não encontrou outra
coisa na geladeira lá de casa que parecesse com um lanche. Na minha
adolescência, me senti mais próximo dela e gostava de passar as tardes em sua
companhia. Ao escrever isso, fico com os olhos marejados. Tenho saudade. Já a vó
Milinda tomava mais espaço, em todos os sentidos, e usava sempre o mesmo modelo
de vestido, com estampas diferentes. Ela tinha um vidro de nescafé cheio
de botões que me pareciam preciosos como um tesouro. Morava em Porto Alegre, no Bom
Fim, e quando eu ficava no apartamento dela, íamos ao parque da redenção,
naqueles brinquedos. Quando ela vinha a Gramado, sempre me trazia livros. Ela
trabalhou no instituto de educação. Começou fazendo faxina, depois foi a tia do
corredor e, se aposentou trabalhando na secretaria. Tirava licenças-prêmio e fazia
viagens de grupo. Escutava religiosamente o “noticioso” na rádio, cuja trilha sonora me fazia pensar em uma corrida de cavalos. Conforme fui crescendo, percebi que ela era
uma pessoa difícil de conviver (e talvez eu tenha isso em comum com ela), mas lembro até hoje do "mãezinha do céu" que ela me ensinou.
Bem, esse foi o 29 de março, quatro e cinquenta e sete da tarde. 2022. Entre presente e passado, vamos ver o que o futuro me reserva.
Ohhh, tantas lembranças da velhinha! Lia de cabo a rabo o Diário oficial pra ver as promoções, nomeações de cargos públicos. Se dizia semi analfabeta, mas estava sempre bem informada. Hahahahah, realmente a trilha sonora do noticioso, acho que rádio Guaíba, parecia uma corrida de cavalos. Fico feliz que ela tenha feito bastante viagens e expandido os horizontes. Ela dizia que no fim da vida aquelas memórias vividas eram a única coisa que ela carregava com ela.
ResponderExcluirCom relação aos sapatos, desapegaaaaaaa! Experiência própria. As coisas nunca tem o mesmo valor entre as pessoas. A minha tia velha vem me oferecer um objeto que pra ela é uma relíquia do passado mas pra mim é um cacareco. Enfim, a mesma vó dizia: " se deu está dado". Ahhh adorei o rocambolesco!
Sim, muitas lembranças... a trilha do noticioso da rádio, acho que é o final da abertura de Guilherme Tell, do Rossini.
ExcluirEntão tá... dei está dado. Foram-se os sapatos, ficam os pés :)
Primo!!! Viagei no tempo, relembrando momentos. Da vó Armelinda lembro de muitas coisas e principalmente do Amor verdadeiro que tinha por nós seus netos; eu, você, Rique? Lu e Rose.
ExcluirErrata: viajei
Excluir, em vez da ?😊
Sim... muito amor. Imagina se ela tivesse conhecido os bisnetos!
ExcluirAs duas avós de livro de história de boa qualidade, bem escrito e bem ilustrado. E os sapatos? Ficaram pra um elegante mendigo que também merece ser calçado! 😉
ResponderExcluirAdorei!
Hehehe, que os sapatos sejam bem empregados :)
ExcluirE é verdade, essas avós também podiam ser personagens de novela antiga.
Geralmente semanas antes de começar a namorar sonhava com pares de sapatos, talvez nada a ver com a escrita, mas me lembrei disso, rsrs..então como estás falando de memórias, talvez caiba..rsrs...
ResponderExcluirSério? Que legal! Mas dizem que sempre se encontra um sapato velho para um pé torto...
ExcluirKkkk Kkkk..né!
ExcluirNessa madrugada insone fiquei viajando com tuas memórias e cheguei a encontrar o par de sapatos na praça. Na medida do impossível dançamos um tango. Na saída deixei de propósito um salto alto de bico fino. Vá q ele me encontre no futuro breve.
ResponderExcluirQue lindo! De par em par, de sapatos, vamos alcançando esse impossivel.
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