Boletim de ocorrências #15

Agora sim, não tenho mais nada pra escrever. Desta vez é verdade. Vai começar a ficar repetitivo, isso aqui, comigo começando cada novo boletim afirmando que não tenho assunto. Mas realmente, o que falar? Acho que fui um pouco ambicioso, na minha proposta de escrever de segunda à sexta. Quem consegue fazer isso, e trabalhar em tempo integral, e fazer as compras da semana, e assistir seus videozinhos, e escutar seus podcastzinhos? Devia ter começado esta empreitada durante os confinamentos. Passei exatamente um ano e meio sem trabalhar e não aproveitei esse período para esta produção intelectual. Ao mesmo tempo, naqueles meses, eu não estava com as ideias claras. Não que agora eu esteja com a vida resolvida. Longe disso. Mas durante a fase mais intensa da pandemia, quando tudo era desconhecido, e depois, quando tudo era conhecido, eu estava meio perdido. Apático. É que eu esperava ter a tão desejada estabilidade. E não tive.

Em 2018, senti uma necessidade de ter mais segurança. Isso já estava lá, sendo alimentado há tempos, mas em 2018 decidi não procurar novos projetos artísticos e investir em outros trabalhos, mais estáveis, mais rentáveis. Depois de 21 anos de teatro, decidi ir trabalhar. Sim, porque pra muita gente, quando você diz que é ator, que faz teatro, eles te perguntam “e você trabalha com quê?”. É engraçado.

Ou triste.

Porque, na verdade, eu sempre pude responder essa pergunta. Sou ator e trabalho no museu. Sou ator, mas também cuido de criança. Sou ator e modelo vivo. Ator e recepcionista em um hotel. Ator e trabalho em um colégio, como assistente. E dirijo uma bicicleta com uma cantina itinerante para empresas. E tradutor, para uma revista universitária. E também redijo as atas das reuniões de empresas com os sindicatos. E, finalmente (até agora), ator e comissário de bordo em uma linha de trem internacional.

Quantas vidas em uma vida! Mas será que tive tempo de viver, com todo esse trabalho me ocupando?

Daí que, o que aconteceu foi eu decidir ficar neste último emprego, que era legal, rentável, fácil e me deixava com bastante tempo livre. Ótimo. Tudo resolvido. Agora era só aproveitar a vida. A última vida de André M. Agora, pensei naquele filme, só que já me dei conta que errei o título. Minha memória tem disso. As sete faces do doutor Lau. Pensei que era as sete vidas do doutor Lau. Que filme louco. Queria assistir novamente. Realmente, podia dar um filme, essa história de trabalhar. Tenho até medo de escrever aqui e alguém roubar a ideia de roteiro. Atenção, vocês, seis leitores deste blog: ESSA IDEIA É MINHA!

O enredo seria o seguinte: uma pessoa começa a encontrar o baby-sitter do seu filho, que é ator, em diversas situações inusitadas. Por exemplo, quando vai deixar o filho na escola, percebe que o ator também faz um bico lá, como assistente e está recebendo os alunos na entrada do colégio. Ok. Durante o almoço, o ator está fazendo as vendas na cantina da empresa. Ué... Em uma reunião do trabalho, chega o ator para registrar a reunião e escrever a ata. Opa! A pessoa vai buscar um cliente no hotel e lá está o ator, na recepção. Hein? Vai encontrar um amigo na saída de uma aula de pintura, chega um pouco mais cedo e nota que o modelo vivo é o ator. Tem uma viagem de trabalho e, no trem, adivinha quem está servindo uma champanhota para os passageiros da primeira classe? Pois, já deu pra entender, né? Nosso personagem (opa, nosso, não... meu!) que estava achando tudo isso estranho, começa a desenvolver uma paranoia, como se o ator estivesse vigiando-o por todos os lados, em todos os momentos. Mas, na verdade, é só a correria da vida do ator, tentando sobreviver.

Ou uma nova forma de distopia.

Será que já existe esse filme? Bom, fiz um desvio, aí, mas o que eu queria dizer é que, quando decidi ter um trabalho fixo e aproveitar a vida, chegou a pandemia e cagou tudo. Claro, estou reclamando de barriga cheia, em Paris. Mas fiquei sem saber como reagir. Sem saber o que pensar. Precisei de um tempo de introspecção, do qual estou saindo agora. Com vocês, seis leitores.

Até amanhã!

Comentários

  1. Amei! Meu amigo, amei. Só faltou a mãe da criança pra quem o ator faz baby-sitter, decidir ir ao teatro pra se distrair, arejar a cabeça porque "deve estar ficando louca e paranoica" e ver quem no palco?!... tchantchantchan! Ele, O ator!!

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    1. Hahahahaha... sim! Como não pensei nisso!
      Obrigado por ter passado por aqui, AnAm... primeira leitora do dia!
      beijo :)

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