Boletim de Ocorrências #18
Aqui de novo. No quarto de hotel dividido com um colega, que dorme na cama ao lado. Sim, né. Não seria na minha cama que ele ia estar dormindo. A disposição deste quarto é meio estranha. Normalmente, em um quarto de hotel, a televisão fica na frente das camas. Mas neste quarto, na frente das camas tem uma janela e um móvel. Então, o aparelho de televisão fica mais para o lado, de frente para a porta do banheiro. Acabo de verificar e, sim, é possível assistir tv sentado na privada. Acho até que é o melhor ângulo para fazer isso neste quarto. O único que não vai te dar um torcicolo. Mas daí, precisa ter um pouco mais de intimidade com o coleguinha de quarto. Não é o caso. Mas tudo bem, de qualquer forma, a programação da tv inglesa é particularmente podre. São apenas reality shows, e coisas realmente alienantes. Talvez a tv francesa também seja assim. Não sei, não tenho tv. Mas acho que não.
Este quarto realmente é disposto de forma diferente. Nesse hotel, quase sempre, ao lado da porta de entrada, tem um móvel com espelho e cabides. Pois, aqui, este móvel fica bem de frente para minha cama. Ou seja, posso ver meu reflexo no espelho enquanto escrevo. Que linda visão, do artista em meio de sua criação. Pode-se observar uma luz particular em seu rosto, metáfora das ideias vindo à tona. Ou é apenas o reflexo da tela do computador, não sei.
Mas voltando à programação de televisão. Ainda bem que não tenho tv. Não posso ter. É igual às comidas gostosas, das quais falei ontem. Se tiver um aparelho de televisão na minha frente, eu vou mergulhar no que ele tem de pior. Kardashians, reforma de casas e apartamentos, real housewifes, judge Judy, pessoas que não se conhecem confinadas em uma casa e por aí vai. Aqui na Inglaterra, tem um programa em que três pretendentes compram roupas para uma pessoa, e essa pessoa vai decidir sair com a que deu o presente que mais gostou. Uma variante é que três pretendentes cozinham uma refeição para uma pessoa, e essa pessoa vai decidir sair com a que cozinhou melhor. Se alguém conhece a cozinha inglesa ou o estilo do pessoal nas ruas, já pode imaginar a qualidade destes programas.
No Brasil, os participantes de reality que não são muito ativos, são chamados de plantas. Acho injusto com a planta, que está ali pra ornar. Quando a gente faz teatro, passa por uma fase em que tem que fazer a planta, não? A semente que germina e se torna uma árvore e etc. Ou então, no primeiro espetáculo de uma criança, sempre tem aqueles que tem que fazer a árvore. Normal. Não tem personagem pra todo mundo. Enfim, comigo não foi assim. Meu primeiro papel, quando revelei meu talento para o mundo, na peça de fim de ano do jardim de infância, foi, nada mais nada menos do que Jesus. Sim. Enrolado em um lençol amarelo, eu conversava com um passarinho, espalhando minha mensagem de paz entre os homens. Não fui planta.
Mas ainda sobre reality shows que passam na tv inglesa, de longe, os meus preferidos são os de controles de fronteiras procurando drogas ou alimentos não declarados. É que em certos países, os controles de fronteiras são muito estritos. Sobretudo naqueles países que são ilhas, pode ser muito perigoso deixar entrar uma nova espécie animal ou vegetal. Mesmo uma larvinha ou uma simples maçã podem ser fatais para o ecossistema local. Então tem o controle das pessoas que não declararam nada, mas que estão com as malas cheias de comidinhas gostosas que trouxeram de suas viagens. Ou drogas. A criatividade é infinita! Drogas na peruca, drogas na meia, drogas na cintura de recuperação da lipoaspiração, drogas na dentadura. Tudo é possível. E eu adoro. Não devo. Mas gosto. Está errado. Mas me divertido.
Talvez a tv de frente para a privada, seja uma mensagem do hotel, sobre o que você faz com seu tempo livre, quando vem para Londres.
Vou tirar uma soneca. Até amanhã.

Adorei!
ResponderExcluirSaudade!
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