Boletim de ocorrências #20
Bah, hoje foi um daqueles dias que comi muitas sobremesas. Um dia de ficar em casa e inventar coisas pra fazer. Quer dizer, inventar não, pois precisava mesmo fazer uma faxina, que se estendeu por toda a tarde. Com longas pausas para comer, telefonar para uma amiga, assistir um vídeo, ouvir um podcast... E ver se alguém tinha passado por aqui, pra ler o boletim que tinha saído.
Não. Ninguém.
Tudo bem. Vou fingir que faço isso apenas pelo meu prazer pessoal. Pelo prazer de escrever. De tirar algo de dentro de mim, abrir um espaço interior e expor isso a céu aberto. Publicamente. Mesmo que ninguém esteja vendo. Vou fingir que o prazer de ser lido nem passa pela minha cabeça.
Então, falando em tirar algo de dentro de si, vi essa senhora, outro dia, que baixou a máscara no metrô para palitar os dentes. E claro que o que mais me impressionou não foi que ela tenha baixado a máscara em um lugar em que o uso é obrigatório, já que tem muita gente ali que não está nem aí, mas o fato de ela palitar os dentes na frente de todo mundo. E com uma agilidade! Ela passava o palito no dente rapidamente e, se saia alguma coisa, ela fechava o palito entre os lábios e puxava ele limpinho. Tipo, ela comia o que estava saindo do dente dela. Dito assim, pode parecer nojento, mas isso eu até acho ok. Dali, só saíram coisas que já estavam na boca dessa mulher. Mas para mim, o que me dá vergonha alheia é praticar um ato de higiene pessoal publicamente. Expor para quem quiser ver, algo que é da esfera íntima. Enfim, me dava vergonha mas eu não conseguia desgrudar o olho.
Daí fiquei pensando que para muita gente talvez isso não tenha problema nenhum. Tipo, eu mesmo, acho normal e até bonito, ver mulheres que se maquiam no metrô. Ver essa transformação acontecendo entre duas estações e imaginar a moça que resolveu tomar mais tempo para levantar da cama ou para tomar seu café da manhã e que depois, na correria, vai se maquiar no metrô. Claro, acho bonita a imagem, não o fato da mulher ter que rebocar a cara para ser aceita em sociedade. Outra coisa que não me choca mais, porque na França é comum, é assoar o nariz em público. E de maneira bem barulhenta. De qualquer forma, é melhor do que ficar com o nariz escorrendo, né?
Mas se alguém estiver cortando as unhas, já é outra coisa. Ou mesmo, penteando os cabelos. Fico constrangido. Com pudor. Quase com agonia. Eu acho que tem a ver com isso, das coisas que saem de você. Coisas que saem de você são da esfera íntima. Acho que é isso. Então, xixi, cocô, unha, cabelo e comida do dente, pra mim, fazem parte dessa coisa aí. É, deve ser isso. Não jogue um pedaço de você em cima de mim, por favor.
Mas, no fundo, não tem problema. São coisas que todo mundo tem e todo mundo faz. Menos os carecas, que não penteiam o cabelo, claro. Mas não vem ao caso, aqui. Talvez tudo isso não devesse ser um tabu. Talvez eu devesse relaxar e deixar cada um cortar sua unha onde quiser. Mesmo coladinho em mim, no metrô lotado. E se um pedaço de unha cair em cima de mim, talvez eu devesse encarar isso naturalmente. Sem pudor. Pegar essa unha e devolver para pessoa com um sorriso, ou jogar ela no chão. Jogar a unha no chão, não a pessoa, né, que fique claro. Enfim, simplificar as coisas. Desdramatizar.
Olha só. Eu
mesmo, estou aqui, tentando jogar em você um pedaço de mim. E, aparentemente,
ninguém está nem aí. Ou seja, em meio a esta indiferença generalizada, vou aqui, colocando essas coisinhas pra fora. Pega quem quiser.
Até a próxima, então.
Primeira vez que leio um post deste blog pq nao sabia da existencia. Eu achei uma "cochonerie" descrever a mulher do metrô. Tava me arrependendo de ter começado a ler...depois lembrei de umas situações que passei e esse relato me pareceu bem rico culturalmente. Lembrei de uma francesa que me interpelou na rua pedindo um lenço de papel pois tinha espirrado e aplacado tudo com as mãos. Segundo fato que lembrei foi de ver uma mulher sentada no jardim do Palais Royal fazendo as unhas. Sendo assim, posso concluir que são culturas diferentes mesmo. Gostei!
ResponderExcluirTeu comentário me deixou tenso... e depois contente. Porque enquanto escrevia esse boletim, me perguntava se não era "um pouco demais", mas resolvi deixar tudo ali. E que bom que tu não desististe da leitura e pode ter uma conclusão sem arrependimentos.
ExcluirSe tu quiseres, tem outros textos aqui neste blog, que são menos crus, talvez mais poéticos. E também, tem o blog que eu escrevia em francês, entre 2006 e 2012. https://umlugarparaandrem.blogspot.com/
Um abraço e até a próxima, espero :)