Boletim de Ocorrências #51

Parece que o último círculo do inferno é um lugar frio.

Foi a imagem que ficou na minha memória, depois de ter ouvido há um ano e pouco um podcast com a Paula Vermeersch sobre o Inferno da Divina Comédia, de Dante. Hoje, assisti a um vídeo também com ela sobre o mesmo tema e outros detalhes do inferno chamaram minha atenção. E isso me deu vontade de vir aqui.

Quando comecei a escrever o blog, fui procurar nas minhas fotos aquelas que poderiam ilustrar os boletins. Criar um arquivo de imagens e de ideias. Em um e-mail antigo, encontrei esta foto aqui e me veio imediatamente essa frase. Parece que o último círculo do inferno é um lugar frio.

Na hora, não lembrava de onde era a fotografia, ou como ela tinha vindo parar no meu e-mail. Mas não foi difícil descobrir que fazia parte de uma série de imagens que minha prima tinha enviado há alguns anos, para mostrar a neve em Gramado.

E lá, ficam os traidores. Enterrados no gelo.

Lá. No último círculo do inferno.

Pelo que entendi, para Dante, os traidores são os piores. São os que causam mais mal para o mundo. E, nesse inferno compartimentado, categorizado, os traidores só têm como companhia a ladainha insuportável dos outros traidores. Pior castigo.

Não sei exatamente porque, mas achei que essa imagem de Gramado e o último círculo do inferno de Dante fariam um bom casamento. Pelo menos, aqui nesse texto. Essa cidade que faz parte de mim e me dá certa aversão. Essa cidade da qual eu quis sair para nunca mais voltar. Essa cidade que elegeu um presidente com mais de 80% de votos em 2018. Essa cidade aí.

Cidade de traidores? Ou sou eu o traidor da minha cidade? Já falei em algum lugar por aqui que o traidor da sua pólis, torna-se um pária. Não merece nem mesmo ter seu cadáver debaixo da terra da sua cidade. No meu caso, de qualquer forma, pretendo ser cremado e jogado ao vento.

Mas não vim aqui para falar de Gramado. Vim aqui para falar do inferno.

E de uma outra visão do inferno. Um dia, meu professor de yoga descreveu um possível paraíso: um lugar com céu azul, nuvens, pradarias, cachoeiras, animais se deslocando livremente. Depois, ele descreveu um possível inferno: um lugar com céu azul, nuvens, pradarias, cachoeiras, animais se deslocando livremente. É. Para ele, o inferno e o paraíso são iguais. O lugar que a gente chega no fim é o mesmo lugar. O que muda, é o caminho que se faz para chegar nesse lugar. Se o caminho foi sofrido, tortuoso, semeado de maldade, a gente viveu em um inferno. Se, ao contrário, ele foi generoso, empático e com respeito de si e do que está em volta, a gente viveu o paraíso. Então, quando alguém diz “minha vida está um inferno”, talvez esteja mesmo.

Inferno, também me faz pensar no Passo do Inferno, um lugar por onde a gente passava para ir visitar a tia Cenira, irmã da minha mãe. Na tia Cenira, eu via porcos gigantes, debulhava milho, comia cuscuz, rosca de polvilho e buscava os ovos no galinheiro. Os adultos jogavam canastra e, no ano novo, soltavam fogos de artifício e estouravam espumante, cantando adeus ano velho, feliz ano novo. Acho que foi lá que eu, criança, tomei um copo de cachaça, pensando que era água. Mas cachaça não é água, não.

Voltando ao inferno. Pra mim, o Passo do Inferno se resumia àquela ponte vermelha de ferro que a gente tinha que atravessar bem devagar. Diabólica. Ao mesmo tempo uma tensão e uma fascinação. Medo e alegria. O passo era a passagem dessa ponte e o inferno era o rio que estava lá embaixo.

Na época, para mim, o inferno também era o calor do percurso, a poeira na estrada de chão, o cheiro do carro do meu pai, que me dava enjoo. Mas hoje essas lembranças vêm com uma cor mais doce.

Pelo jeito, realmente, inferno ou paraíso, tudo é uma questão de perspectiva.

Comentários

  1. Isso mesmo André. É tudo a perspectiva. Naquela ponte já fui fazer rappel e acampar com amigas lá embaixo. Foi poético e me traz boas recordações. Sem dúvida, alguns perrengues da infância tomam ares mais doces quando lembramos com saudosismo e nos defrontamos com os problemas da vida adulta

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    1. Nossa, deve ser lindo, lá embaixo... Não sei se já desci. Talvez. Quem sabe é um passeio pra gente fazer juntos, na próxima vez que eu estiver por aí? Mas sem a parte de acampar, tá? :)

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  2. A propósito, essa foto poderia ser o sonho de consumo desses loucos que vem buscar o frio e neve por aqui!

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    1. E que fiquem hospedados no teu Refúgio, então! :)

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